"Um erro pode derrubar um repórter? Depende do tamanho do erro"Ele ganhou em 18 anos de carreira, o Prêmio Ok de Jornalismo por ter desvendado em O Globo, a máfia dos Anões do Orçamento; Prêmio CNT por matérias sobre a máfia dos Precatórios do DNER e o Prêmio Esso por ter participado da equipe que fez a cobertura da cassação do ex-senador Luiz Estevão.
Como conselho aos "focas" da área política ele afirma ser a consistência do trabalho, o mais importante no jornalismo político. "À medida em que o repórter vai conquistando boas informações confiáveis, amis confiança ele vai ganhando dos seus editores obtendo maior espaço e respeito. Tanto dentro do seu jornal como no meio", assegura o jornalista.
Segundo ele, uma de suas reportagens mais importantes mas ainda não premiada foi a publicada em 17 de outubro, no Correio Braziliense sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura. A repercussão foi tão grande que o Exército e o presidente da República tiveram de se pronunciar. Agora, a abertura dos arquivos do regime militar está apenas começando.
Com esse currículo que Rudolfo Lago faz uma análise do jornalismo político, desde a cobertura internacional, semelhanças entre o caso Watergate e Collor, à políticos e repórteres políticos que o inspiram até hoje.
Simone Magalhães - Como está a cobertura internacional da política? Muita coisa ainda vem das agências internacionais?
Rudolfo Lago - Eu não acompanho de perto o dia-a-dia da cobertura internacional. Mas penso que ela é uma das que mais padecem da crise financeira que afeta a todos os jornais. Os jornais hoje têm menos correspondentes estrangeiros e menos dinheiro para viagens internacionais. Ficam, assim, mais dependentes, é claro, do material enviado pelas agências. Mas penso que, especialmente aqui em Brasília, explora-se muito pouco, muito menos do que se poderia, o trabalho do Itamaraty e das embaixadas. No Itamaraty, há diplomatas atentos aos movimentos políticos de cada canto do mundo. E nas embaixadas, há diplomatas atentos à política brasileira e aos efeitos dela nos interesses dos seus países. Fala-se muito pouco com essa gente. Isso é muito pouco explorado.
Simone - O impeachment de Collor seria o nosso caso Watergate? Em entrevista exibida pelo programa Larry King com os repórteres do caso Watergate percebe-se o papel do jornalista em buscar a notícia: pesquisando; consultando fontes como o Garganta Profunda; vendo vídeos de Nixon e na outra ponta, a volta deste a vida política como consultor de outros presidentes em 1990; a população lhe destituindo todo e qualquer poder político e, por fim, a anistia concedida pelo vice-presidente Ford a Nixon, personagem de um dos maiores escândalos dos EUA.
Rudolfo - A comparação é válida. O impeachment de Collor também foi um movimento originado do trabalho da imprensa. Com a diferença de que, aqui, originou-se de uma entrevista de alguém intimamente ligado ao esquema, o irmão do presidente, Pedro Collor. Uma outra diferença é que, no caso do impeachment de Collor, não houve um jornal ou revista que tenha dominado o assunto, como no caso do Washington Post e do Watergate. Aqui, houve uma associação de esforços. A partir da entrevista original da Veja, as coisas foram estourando em vários jornais. A IstoÉ descobriu o motorista Eriberto. O Globo, o cheque da Fiat Elba, etc.
Simone - Ainda com relação ao Caso Watergate, nos esquecemos dos erros políticos já que muitos acabam voltando como vereadores, deputados ... Podemos definir que o povo brasileiro tem memória curta?
Rudolfo - É importante que a gente entenda que a democracia no Brasil nunca foi um fenômeno que se consolidou. Desde a proclamação da República, nós assistimos a curtas passagens de democracia alternadas com momentos de ditadura. O povo não se educou. Na Velha República, só a elite votava. Depois, vivemos 15 anos de ditadura com Getúlio Vargas. Aí tivemos um curto período de vinte anos de democracia, interrompido por nova ditadura que durou outros vinte anos. Agora, vivemos vinte anos de democracia. Estamos aprendendo. Os cientistas políticos apontam que talvez apenas agora o eleitor tenha começado a compreender a importância do seu voto. Nas eleições municipais, apontou-se que em alguns casos, o eleitor aceitava mimo que o candidato que queria comprá-lo dava e, aí, compreendendo que o voto é secreto, chegava na cabine e votava em quem queria. É preciso aperfeiçoar o sistema eleitoral, tornar bem menos cara a campanha (talvez com o financiamento público). E ir experimentando. A própria continuação da democracia, o aprendizado a partir dos erros, é que vai aperfeiçoar o nosso sistema político.
Simone - A mídia hoje é mais controlada pelas redes de comunicação e pelos poderes de uma minoria. Quem realmente escolhe o que será notícia?
Rudolfo - É claro que há um processo que envolve interesses dos proprietários. Mas, no dia-a-dia, eles interferem pontualmente. A escolha do que será notícia é dos editores. No caso do Correio (nos demias jornais, não é muito diferente), há duas reuniões. Uma pela manhã, faz as apostas do dia (os assuntos que, pelo noticiário do dia anterior, deverão merecer maior atenção). À tarde, verifica-se o desdobramento daquelas matérias em que se apostou, e acerta-se o que merecerá maior ou menor destaque. O editor-chefe faz a ponte entre os interesses dos proprietários e a opinião dos editores. Acontece, às vezes, de um assunto ser aumentado ou diminuído de acordo com esses interesses. Mas tal postura não é algo que possa resistir por muito tempo. Se um assunto virar notícia nos demais jornais, resistir na opinião pública, o jornal que quis diminuí-lo vai ceder no dia seguinte, pode apostar.
Simone - Qual seria a diferença entre política e politicagem? Por que a cobertura de hoje aborda mais fofocas, denuncismo e o sensacionalismo do poder público?
Rudolfo - Gramsci falava da pequena e da grande política. A grande política é a discussão dos grandes temas de interesse do país. A opção de política econômica, por exemplo. Ou de investimentos sociais. A pequena política é politicagem. A discussão de cargos, emendas orçamentárias, etc. Não estou entre os que acham que a opção pela politicagem é dos jornais. Ela é dos políticos brasileiros. Qual é o programa de governo do atual governo maduro o suficiente para ganhar as páginas? Em que momento esse programa é o principal assunto no Congresso? Não é o governo que estabelece agora uma reforma ministerial com base apenas na pequena política, na necessidade que partidos como o PMDB exigem de mais dinheiro orçamentário, de mais cargos para distribuição? Não é o Congresso que pára por três meses porque o governo não libera verbas do orçamento? Então, se os jornalistas fossem para o Congresso ignorando essa pequena política e querendo dar prioridade apenas aos grandes tmas, eles estariam enganando os leitores, uma vez que não refletiriam a real situação que existe na Casa.
Simone - Quais jornalistas políticos dentre colunistas, o Sr. mais admira ou mesmo se inspirou logo no início da carreira?
Rudolfo - Carlos Castello Branco foi o maior de todos. É o professor de todo mundo. Entre os atuais colunistas, a que amis admiro é Teresa Cruvinel, de O Globo.
((Continua ...))
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