23 de fevereiro de 2016

CRÍTICA | FILHO DE SAUL


Se você acha que já viu tudo sobre o nazismo nos cinemas deverá se surpreender com ‘Filho de Saul’. Dirigido pelo húngaro László Nemes, o longa de estreia do diretor e roteirista foi premiado pelo júri e crítica no Festival de Cannes de 2015, e representa o país no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ao lado dele, concorrem países como Dinamarca, França e Colômbia (veja aqui a lista completa dos indicados). 
Na trama, somos apresentados ao judeu-húngaro Saul Ausländer que vive como uma espécie de guardião (a escória da escória) de um dos campos de concentração em Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. Sem questionar o sistema, o prisioneiro segue sua rotina diária de corpos (no filme chamados de “pedaços”), tiros, gritos, explosões, muita fumaça, pequenos furtos e subornos. A câmera é o olhar de Saul que tudo vê e nada interfere, ele apenas trabalha e trabalha.
Mas será imerso nesta carnificina – que mais se assemelha a um açougue humano – que surgirá a tão esperada redenção para o nosso protagonista. Afinal, mais do que sair dali, Saul procura algo que o faça sentir humano e o resgate de toda a insanidade e horror que o paralisam. É neste contexto que o filho de Saul (sem spoilers aqui) se torna a sua principal motivação e ganha ares de missão. Seria o garoto realmente filho de Saul? A partir dali, os mortos importam mais do que os vivos. A ética e a moral prevalecem, ao menos para o personagem, que passa a viver sua própria saga.

Com cenas fortes que você, com certeza, não verá em outros filmes. O ‘Filho de Saul’ dispensa diálogos sem deixar de ser denso e intimista. Em poucas palavras, Géza Röhrig carrega o filme com a dramaticidade certa. O olhar é sensível. A fotografia é precisa, feita quadro a quadro e não em planos mais abertos. Em todo o filme temos uma lente que incomoda pela tensão do que está porvir, mas que em momento algum apela para o tom piegas dos dramalhões já feitos para o gênero. ‘Saul’, pelo contrário, parece mais um filme de ação. Não há pausas, não há música incidental, nem mesmo trilha. O personagem é levado de uma situação para outra e o espectador tem a sensação de ver tudo pela primeira vez, em primeiríssima mão.
Nas entrelinhas de um lugar onde ninguém mais se choca com nada, Saul personifica a prisão dentro da prisão e o ápice da rebelião ao buscar ser a única mente sã em meio as atrocidades nazistas. O tempo todo, o filme joga com silêncios, intimidação e desrespeito ao direitos básicos do ser humano. Como manter a dignidade em meio a tudo aquilo? Como manter-se vivo? É neste contexto que o filme permanece atual ao mostrar um outro lado dos campos de concentração. As cenas ali falam por si só.

Ao longo de quase 2h de projeção, o ‘Filho de Saul’ só peca mesmo por não deixar às claras no roteiro a questão do garoto. A cena final, por exemplo, é como se o garoto voltasse dos mortos ou se ele fosse um sinal de que Saul finalmente concluiu com êxito a missão. Mais do que a liberdade em si, o filme destaca o indivíduo versus a coletividade (aqui tanto oprimida quanto dominante). Durante todo o filme ficamos com a sensação de que o personagem entrará numa câmera de gás ou levará um tiro. Portanto, a dica para os cinéfilos é: não vire para o lado, não fale com ninguém. Boa sessão!
Simone Magalhães para o site Über7, em 24/02/2016.
(http://www.uber7.com.br/critica-o-filho-de-saul/)

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