Filme adolescente se perde entre o saudosismo e o romantismo exacerbadoUm filme para adolescentes. Assim define Rosane Svartman (Como ser solteiro), diretora e também roteirista da comédia juvenil Desenrola que chega aos cinemas nesta sexta. Do mesmo universo de As Melhores coisas do mundo, de Laís Bodanzky e Houve uma vez dois verões, de Jorge Furtado além dos clássicos do cinema nacional, Menino do Rio e Bete Balanço, nos anos 80. A história gira em torno de uma garota, de 16 anos, que idealiza sua primeira vez com o gostosão do bairro. A partir daí, não faltam praia, amores, conflitos, amizades, um pouco de escola e uma deliciosa trilha sonora. Os maiores de 30 poderão se lembrar da série Confissões de Adolescentes (também escrita e roteirizada por ela). Mas, as semelhanças param por aí.
Afinal, como falar para essa juventude sem soar clichê? Narrado sob a ótica feminina (daí, talvez, o enfoque mais romântico), o filme conta a história de Priscila (Olívia Torres), filha de Claudia Ohana, que com a viagem a trabalho da mãe, ficará 20 dias sozinha. Tempo suficiente para conquistar Rafa (Kayky Brito), o garoto mais popular do colégio e objeto de desejo, ou melhor, primeiro amor da personagem que vive a expectativa de acontecimentos que fluirão de maneira inesperada, como a amizade de Priscila com Tize (Juliana Paiva, a Val de Ti-ti-ti), princesinha da escola e irmã de Rafa. Namorando um rapaz bem mais velho, ela contará com Priscila para lidar com uma gravidez indesejada. Mas em um mundo onde os adultos vivem meros figurantes, assuntos como gravidez ou Aids passam longe de um tratamento adequado.
Priscila tem também Caco (Daniel Passi), seu melhor amigo, que se divide entre sentimentos por ela e novas possibilidades. E Boca (Lucas Salles), o apaixonado colega de sala que sonha em perder a virgindade com ela. É ao lado de Amaral (Vítor Thiré), que Boca se diverte e gera o verdadeiro desenrolar na trama, seja pelo comportamento infantil quanto pelo amadurecimento da personagem. É Amaral, aliás, bisneto da atriz Tônia Carreiro e melhor amigo de Boca, quem vive filmando tudo em seu celular para por no YouTube. Estranhamente, ele é o único personagem ligado em tecnologia. Até Priscila ainda usa um diário cheio de recortes em papel. E, uma curiosidade: o núcleo central desta garotada já se conhecida da escola, vizinhança ou trabalhos conjuntos no teatro. Olívia Torres, por exemplo, ganhou um papel em Malhação logo após as filmagens.
Mas o maior destaque do longa é mesmo a trilha sonora, que ganha praticamente um capítulo à parte, graças a interpretação de Maria Gadú na faixa “Quase Sem Querer”, da Legião Urbana. E de nomes da nova e velha geração, como: Mallu Magalhães e a banda de rock feminino Agnela (responsável pela faixa-título, composta pelos internautas), além de Ritchie, Paralamas do Sucesso e Simple Minds, que agradarão em cheio a geração 80ista. Apesar disso, o filme lembra mais um episódio de folhetins, como Malhação. Sem falar na enxurrada de atores globais, como Pedro Bial, interpretando um charmoso professor de Matemática. Juliana Paes, como a tia gostosa de Alfenas (MG), que pega o sobrinho. E Marcello Novaes e Letícia Spiller, respectivamente como pai e madrasta de Priscila. Mas aqui é o jeito dos jovens que impera na frente e atrás das câmeras.
Bem ao contrário do filme de Bodanzky, a liberdade do roteiro participativo, em escolas do eixo Rio-São Paulo e também via redes sociais, parece ter dado um efeito contrário nas telonas, engessando e arrastando a fita. Fica a impressão de que o melhor tenha ficado lá nos bastidores, no projeto iniciado bem antes do longa. Da pesquisa, da série de documentários exibida pelo canal GNT, depois a série na internet e, por último, o livro homônimo. Mais uma vez os recursos explorados pelo projeto perdem espaço para um certo ar retrô, para a nostalgia que paralisa o presente e o futuro em nome de um discurso único entre as gerações. E é também pela falta de um argumento que se aprofunde e evolua que o filme acaba cansando o espectador.
Nada contra a ficção, mas em pleno século 21, os jovens realmente querem ou acreditam nisso? Não estariam os mais velhos sendo um tanto quanto saudosistas? Talvez o formato fique melhor na tela pequena. Talvez a ideia seja dar sequência aos personagens na TV (em série exibida ano passado no Multishow), repetindo-se os passos de Cidade dos Homens (série originária de Cidade de Deus). Mas, é somente quando sobem os créditos, que o filme desenrola possivelmente sua melhor parte. No fundo “Será Possível”, cantada por Olívia Torres. E interpretada por Boca, na cena do ônibus. E Jim Kerr, vocalista do Simple Minds, dando uma entrevista por Skype. Imperdível!
Por Simone Magalhães, publicado em 14/01/2011, no Guia de Cinema SÉTIMA ARTE


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