10 de setembro de 2009

ENTREVISTA // Jornalismo Policial

Marcos Zanfra, ex-repórter policial e autor do Manual do Repórter de Polícia fala sobre jornalismo policial, Nelson Rodrigues e os estereótipos da profissão

Como falar de Nelson Rodrigues sem citar jornalismo, principalmente o policial, teatro e suas adaptações para o cinema? Estes foram alguns dos temas tratados em meu projeto final de curso, em 2007, no UniCEUB.

Da ideia inicial de grupo focal que detinha para análise do filme "O Beijo no Asfalto" publico a entrevista abaixo, sem dúvida, uma das melhores da minha vida acadêmica. Portanto, mesmo sem TCC divulgado em blogs ou reportagens, dedico esta aos leitores, com carinho.

Desde já, recomendadíssima a consulta ao Manual hospedado lá no Portal Comunique-se. Já o meu trabalho, se interessar, envio o pdf.

1 - Por quê um manual de jornalismo policial? Qual a repercussão do seu manual no site do Comunique-se? No geral, são mais focas ou veteranos que lhe procuram?

A resposta parece meio óbvia, mas é bem por aí mesmo: o Manual do Repórter de Polícia foi criado porque não existia. Ou melhor: não havia uma referência bibliográfica para quem, de repente, era obrigado a cobrir a área. Os repórteres que cobrem apenas polícia acabam aprendendo com a vivência, acabam tendo uma curiosidade maior para aprender... mas, e os “noviços”? Polícia não é fácil, e deve ser abordada com a mesma correção de informações que uma matéria de economia, por exemplo. Por que dar informações erradas? Por que confundir furto com roubo?

Por que dizer que houve um assalto quando houve um arrombamento em um lugar vazio, e isso é furto? Quer queira ou não, a imprensa é uma grande fonte de informação – às vezes a única para muita gente – e, por isso, é necessário muito cuidado para que a fonte informe corretamente. O Manual foi criado para contribuir com essa correção da fonte.

Quando lancei o Manual na internet, num site independente (e gratuito), houve mil visitas em menos de um mês – o que mostra, mais do que a necessidade de consulta, a curiosidade por algo novo. Desde janeiro de 2004, o Manual está no Comunique-se. A repercussão foi das melhores, mas eu não tenho como avaliar o número de visitas. Quanto a contatos diretos, como esse que você está fazendo, praticamente só recebi de estudantes, querendo entrevistar-me para algum TCC. Não me lembro de nenhum veterano, principalmente versado em polícia, que me procurasse.

2 - Como está o jornalismo policial hoje? Mudou muita coisa de lá pra cá? Quando se deu o auge? E a derrocada?

Os erros ainda não foram abolidos, mas os “noviços” não têm mais desculpa: agora, existe uma local para sanar dúvidas. O problema que eu sinto, e eu posso estar enganado, é que sobrevive uma certa preguiça nessas gerações mais novas – e mais novas são aquelas com menos de dez anos de carreira. Então, se a informação está incorreta é por preguiça de consultar os canais que existem.

Você ainda encontra repórteres de polícia em todos os jornais, mas os grandes resolveram não identificá-los assim. Na “Folha de S. Paulo”, por exemplo, não existe um repórter de polícia, mas têm aqueles com mais facilidade de tratar o assunto, e é para eles que as pautas policiais são distribuídas. O jornalismo policial não tem como desaparecer, porque a violência não vai desaparecer – ao contrário, tende a ficar maior. De quando eu comecei a trabalhar para cá, mudou um pouco o enfoque, desapareceu o jargão, mitigou-se o sensacionalismo, mas o jornalismo policial continua aí, às vezes com página inteira mesmo nos ditos “grande jornais”.

Não posso definir com certeza o auge do jornalismo policial porque aconteceu antes de eu ingressar na profissão. Acredito que tenha sido pelo final dos anos 1960 e meados dos anos 1970. Quando eu entrei na “Folha”, em 1977, o jornalismo policial ainda tinha seu destaque, mas não estava mais numa posição que poderia ser considerada como auge. No início dos anos 1980, quando a “Folha” começou a sua grande reformulação, começou também a derrocada da cobertura policial. Não que ela tenha morrido – porque as páginas policiais nunca morrem – mas a abordagem passou a ser feita com menos ênfase e o assunto começou a provocar narizes torcidos entre os profissionais dos jornais maiores.

3 - Por quanto tempo você foi repórter policial? Do que sente mais saudades?

Em meus 30 anos de carreira, completados agora em março, fui repórter durante 25 anos – e, destes, pelo menos 15 anos trabalhei com polícia, exclusivamente ou preferencialmente. Do que eu sinto falta? Depois de experimentar uma redação, você vai ver do que eu sinto falta: aquele clima, aquela agitação, aquela loucura de fechamento. A maior parte de minha carreira foi em jornal diário, e o clima da redação de jornal diário faz falta. Não que, aos 51 anos, eu tenha o pique para encarar pautas diárias, mas gostaria de trocar de vez em quando a relativa quietude
da assessoria de imprensa pelo clima da redação.

4 - Por quê ao contrário do jornalismo investigativo, o policial é tão mal visto?

Aqueles “narizes torcidos” que eu citei agora há pouco ainda sobrevivem. Polícia sempre foi encarada como uma editoria meio marginal. O repórter de polícia, para alguns colegas, estava em contato direto com o submundo e, por isso, deixava-se conspurcar. Imagine se alguém que conversa com bandido podia estar, por exemplo, numa coletiva empresarial? Mas, ao contrário, eu acho que o profissional que faz polícia tem muito mais sensibilidade que esse que faz coletivas empresariais. Tratar com números é uma coisa; tratar com gente, criminoso ou vítima, é outra completamente diferente.

5 - O prefeito da cidade do Rio, César Maia, disse certa vez que o jornalismo investigativo é o nome que se dá ao jornalismo policial. Você concorda? Mas, o policial acabou?

De certa forma, os métodos se assemelham. O segredo, em ambos os casos, é a fonte. E isso pode acontecer em polícia, em política, em economia... Ou seja, o jornalismo investigativo não precisa necessariamente ser policial. E, embora com menor intensidade, o jornalismo investigativo/policial ainda está presente.

6 - O lide, a objetividade, ao seu ver, castraram o texto jornalístico? Como seria ou é o repórter policial de hoje?

O texto policial não precisa ser, necessariamente, um nariz-de-cera. Pelo contrário: é melhor a objetividade, para que o leitor só prossiga na leitura se realmente estiver interessado. E o texto rebuscado tende a ser uma faca de dois gumes: se não for muito bem feito, espanta o leitor. Eu paro de ler, mesmo quando o caso é bom, se o repórter vem com aquele textinho piegas, patético. O repórter policial de hoje pode ser igual ao repórter policial que eu fui até 2002: objetivo, com lead e sublead, mas deixando espaço para o sentimento, bem dosado, no decorrer do texto. Basta ter um pouco de talento para saber dosar.

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