10 de setembro de 2009

Zanfra - parte 2

7 - Quem são ou foram seus ídolos?

Em jornalismo, meu maior ídolo ainda é Ricardo Kotscho, com quem tive a felicidade de trabalhar durante quatro anos. Ele é aquele tipo de repórter que pode tanto conversar com a bandidagem quanto cobrir coletiva empresarial. Admiro muito também José Hamilton Ribeiro (com quem nunca trabalhei), Valério Meinel (trabalhamos na revista Agora!, ele no Rio, eu em SP), Mário Chimanovitch (meu diretor na revista) e Clóvis Rossi.

8 - O jornalismo “marrom” está quase sempre associado ao jornalismo policial, concorda? Não seria porque nele é mais fácil esta promiscuidade fonte/poder?

O jornalismo marrom é uma forma de expressão, não de coleta de informações. Você pode muito bem coletar seus dados na Cúria Metropolitana e estampá-los de uma forma tendenciosa e sensacionalista. Tenho um exemplo mais próximo, aqui no Detran (onde sou assessor de imprensa): nós tivemos um seminário para instrutores de trânsito, com provas de avaliação, e 69% dos participantes obtiveram nota superior a 7. Eu, com meu lado “imprensa marrom”, mandei release para a imprensa indicando que “31% tiveram nota inferior a 7”. O lado negativo era mais chamativo, e essa é a visão “marrom”. Promiscuidade é uma palavra que talvez não caiba; há partilha de interesses na cobertura policial, há uma espécie de simbiose, mas nãonecessariamente promiscuidade.

9 - O leitor ainda se alimenta, se interessa pela vida alheia, é fofoqueiro?

Quer exemplo mais gritante do que essa aberração chamada “Big Brother Brasil”? Se o povo não fosse fofoqueiro, pobre de espírito, a Globo já teria sepultado esse excrescência.

10 - Acredita que ainda há espaço hoje para o jornal "espreme, sai sangue" ou a TV teria incorporado este papel?

Já fui fã, hoje acho que não acrescenta nada, mas tenho certeza de que, se você lançar um jornal sanguinário, com ênfase aos casos de polícia mais escabrosos, vai ter seu público garantido. Acho que é uma espécie de catarse coletiva: o povo gosta de ver desgraça porque, enquanto está vendo, significa que não faz parte dela. Você não vê um cara envolvido em acidente de trânsito juntar-se à multidão para ficar olhando para os destroços: ou ele está no hospital, ou está querendo distância daquilo que lhe traz más lembranças. Um cara que fica olhando pensa mais ou menos assim: “puxa, ainda bem que não foi comigo!”

11 - Sobre a profissão em si ou o jornalismo policial, que clichês (características) já ouviu?

Comecei na profissão em 21 de março de 1977 como Revisor da “Empresa Folha da Manhã”, que, além da “Folha de S. Paulo”, editava o ”Notícias Populares”. Na minha opinião, os jornalistas já foram vistos como românticos, idealistas e boêmios. Hoje, isso mudou. A profissão, mais por causa da TV, ficou um pouco glamourizada, e eu tenho certeza de que a grande procura por Jornalismo no vestibular tem muito a ver com isso: as pessoas acham que jornalista aparece na televisão e conhece só gente importante; não sabem que para aparecer na TV é preciso ser bonito (fotografar bem, como dizem) e que pobreza e desgraça também merecem cobertura. Faça um levantamento: quantos estudantes entram em Jornalismo, quantos se formam e quantos efetivamente entram na profissão. Além da falta de vagas, do mercado cada vez mais restrito, o salário é uma merreca. Quem foi pelo glamour tomou uma entortada.Mais: as pessoas não acham os jornalistas; os jornalistas é que se acham. Nunca vi raça mais vaidosa, mais dona da verdade e mais arrogante (sem parecer arrogante). E eu não digo isso dos outros, digo de mim também. Sempre fui assim, como todo jornalista. A gente acha que pode tudo, que uma carteirinha de imprensa é um passaporte para qualquer lugar (qualquer BOM lugar, entenda-se), que a gente não pode ser preso, que a gente não pode levar tiro, que as pessoas têm medo da gente. Besteira. Jornalista é uma pessoa como qualquer outra, que às vezes sabe escrever um pouco melhor e que às vezes tem um veículo de comunicação paraperpetrar sua opinião. Só que muitas vezes não tem responsabilidade suficiente para usar esse veículo.

12 - Há uma fórmula para vender jornal? Ou só o sensacionalismo já basta?

O sensacionalismo, principalmente se for bem articulado, criativo, é uma forma de incrementar as vendas. Na revista “Agora!”, a capa era cheia de fotos chocantes, com corpos sem cabeça, cabeças sem corpos, cadáveres “crivados de balas” e essa era a arma para vender a revista. O “NP” dos bons tempos era criativo. Viraram referências históricas os títulos “Cachorro fez mal a moça” (sobre um cachorroquente indigesto) e “Violada na platéia” (quando o cantor Sérgio Ricardo quebrou seu violão em protesto pelas vaias à sua música). Quer dizer, dependendo dopúblico-alvo, o sensacionalismo ajuda.

13 - Para um repórter iniciante onde você julga ser mais importante começar na redação? Aliás, em tempos de internet, como vê o novo jornalista?

No meu tempo, era quase obrigatório passar pelo jornalismo policial. Talvez porque vigorasse a teoria de que na polícia se aprende a trabalhar. Hoje, não se crê mais nisso, e você cabe onde houver vaga. Se for numa área legal, melhor ainda. Terrível é você gostar de polícia e ser obrigado a cobrir economia, ou vice-versa. E o bom repórter policial é o bom repórter de internet, porque a reportagem policial tem o arquétipo das matérias da web: curtas e grossas, sujeito, verbo e predicado, nesta ordem.

14 - No filme "O Beijo no Asfalto", Nelson Rodrigues critica o poder absoluto da mídia, essa promiscuidade e o quanto ela influencia a opinião pública podendo invadir e mesmo destruir a vida de outrem. Isso ainda é factível nos dias de hoje?

O que diria aos iniciantes na reportagem?Não faz dois meses, teve o caso de uma garotinha morta em que a mãe era suspeita de colocar cocaína na mamadeira dela. Isso foi noticiado e, presa, a mulher acabou sendo agredida (com fratura de maxilar) na cadeia. Depois, comprovou-se que não havia cocaína na mamadeira e que a filha morrera de outra causa. Acho que isso basta para responder sua pergunta. A imprensa constrói e destrói. Mas, depois de destruir, não há imprensa que reconstrua. O que eu diria aos iniciantes: pensem nas conseqüências de tudo o que fazem; não se deixem levar pelo “glamour” de possíveis manchetes. Lembrem-se sempre de que, além de possibilidade destruir alguém, vocês podem tomar um belo processo pelas costas.

15 - Como se deu a sua escolha pelo jornalismo? Algum veículo em particular o influenciou?

Foi uma coisa meio besta: eu fiz segundo grau técnico (Eletrônica) e escrevi um texto para participar de uma exposição de trabalhos escolares; a professora de Português gostou e disse que eu tinha escolhido a profissão errada, que eu devia ser jornalista. Fui, vi e gostei. Não vou dizer que foi uma descoberta de vocação tardia porque eu já fazia jornalzinho na escola desde criança, só que logicamente não com a seriedade que a profissão exige. Durante o curso, no básico, eu ainda quase troquei para a Publicidade (teria trocado se um emprego como contato tivesse dado certo). Felizmente, o emprego não deu certo.

Questionário extraído do TCC O jornalista-personagem e sua rotina produtiva na composição ficcional do filme ‘O Beijo no Asfalto’, de julho / 2007.

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