Cidadania às avessas! O dia em que os urros "acadêmicos" do ABC paulista foram televisionados para o mundo No país da mulher fruta quem tem um microvestido é .... Complete a frase se falarmos do Brasil. Por mais que este artigo soe antigo, já que o ocorrido deu-se em outubro de 2009 nunca é demais esboçar o moralismo desvelado que a sociedade brasileira alega ter, em detrimento ao livre exercício da expressão e do ir e vir de qualquer cidadão. Principalmente, de uma jovem estudante de 20 anos, do ABC paulista.
Ignorância, covardia, intolerância em um país onde as mulherem passam longe de se vestirem com burcas? Preconceito, sim! Exagero por parte dela também. Pior mesmo foi ver o inegável despreparo de professores e estudantes universitários tomados abruptamente por um delírio coletivo. Linchar agora virou arte? Ah, quanta hipocrisia!!! Chamar de 'puta' uma garota só porque ela trajava um minivestido em sala? O que dizer da prostituição que rola livre em terras brasileiras? Da pedofilia que somente em 2009 foi um pouco mais publicizada e posta, de fato, como culpada? Brasil. Ah, Brasil !!!
Que ato, em si, justificaria o bárbaro descontrole de 800 alunos? Se não fosse a resposta direta e imediata por parte da mídia, de Ongs feministas, da própria Secretaria Especial das Muheres, da UNE, OAB ... Geisy estaria por aí com sua dignidade banida, não só no nome como em sua posição de estudante da Universidade Bandeirantes, localizada em São Bernardo do Campo. Expulsa através dos jornais, depois readmitida, principalmente após a pressão de movimentos sociais até hoje nenhum dos agressores foi devidamente punido. Em uma universidade barata, com cursos na média de R$310 (como o que Geisy pagava), a prioridade deveria ser o estudo e o trabalho para custear o ensino, não? Ou aqueles que pagam para ascender socialmente não deveriam ser os primeiros a respeitar as diferenças? Como conviver em um ambiente hostil e ditatorialmente moralista?
Geisy Arruda e sua imagem pública percorreram o mundo. Em coro, os valentões urravam: "puta", "vamos linchar", "vamos estuprar". Neste intervalo, até o direito a defesa parece ter sido "achado" na rua, ou melhor, no chão. Como bem levantou a reportagem da revista IstoÉ, de 18/11/2009, qual será a formação moral e acadêmica desses alunos? Eu diria: que instituição é essa que preza mais a expulsão de uma aluna, sumariamente execrada a público como ré, ao invés de seus algozes?
Assédio coletivo, violência legitimada, machismo. A unanimidade é burra, já dizia .... Hoje, Geisy colhe os louros da fama. Com dezenas de processos contra a Uniban, ela virou celebridade instantânea. Pintou as madeixas, remodelou o corpo em mais de 10hs de cirurgia e recebeu até convite para posar na Playboy. Pelo sim, pelo não. Não defendo esses 15 minutos de fama, mas que a garota curvilínea tem coragem. Ah, tem! De peito aberto para enfrentar mais uma ditadura: a da beleza.
Que 2010 seja um ano repleto de indenizações para Geisy. Que ela siga estudante (se possível, vire advogada) em outra faculdade. E que a Uniban (a 16° pior universidade brasileira, na avaliação do MEC), seja terminantemente proibida a realizar novos vestibulares, abrir novos cursos e tenha seu registro de funcionamento cassado. Se cada povo tem a minissaia que merece. Que os universitários voltem aos seus estábulos onde a virilidade e o machismo sejam sinônimos de tempos antigos e escassos. Por fim, sem mais Geisys por esse Brasil afora!
Lembrando a burca - O caso Taleban, digo Uniban, remete-nos a exigência de se cobrir a mulher da cabeça aos pés, simplesmente pela crença de que o homem seria incapaz de controlar seus desejos. É mole? O que dizer dos alunos que acusam a universitária de manchar a reputação da faculdade (em alusão a burca simbólica)? E o que eles, anônimos valentões, fizeram??? Ah, sim, tratava-se de um colégio de freiras. Perdão!
Por Simone Magalhães, em 03/01/2010
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